Acredita-se que a herança celular e ou genética da nossa avó materna é determinante para a nossa vida, encarada de uma forma holística, pois ela fornece-nos o património de ADN essencial à nossa vida terrena. É no seu útero que tudo começa…
Vivi um largo período da minha
infância, com a minha querida avó materna, sempre muito presente, posso
testemunhar a importância que ela teve na minha vida em geral, e em particular
no meu percurso religioso.
Foi pela mão da minha querida
e amada avó, que inicializei a minha vida espiritual. Foi com ela que aos
domingos eu ia à missa, que às quartas-feiras à tarde ia à igreja, para ajudar
as mulheres a decorarem os altares com flores pequeninas e branquinhas e
varriam a igreja com serradura, depois de terem afastado os compridos bancos de
madeira.
Nessas quartas-feiras em que a
igreja era um privilégio só meu, e de mais duas ou três senhoras, podia
familiarizar-me com as imagens sacras, que ao mesmo tempo que me atraiam, também
me amedrontavam os dias e as noites.
Não foi nos domingos, onde a
minha igreja se enchia de gente da terra e do mar, que me familiarizei com as
figuras que representavam para mim, criança, o sagrado e o temor do mesmo.
Nessas quartas-feiras, aprendi a tratar por tu os santos e as santas, sem
esquecer o Cristo na cruz, da minha terra natal, onde fui baptizada, e onde fiz
a primeira e única comunhão, embora estivesse preparada para a segunda, mas tive
que vir para Almada viver com os meus pais ficando a cerimónia oficial por se
consumasse.
Na verdade, o medo que
imperava na minha relação com o sagrado, os santos e as santas assustavam-me,
mais os santos do que as santas.
Apenas muito mais tarde
percebi que a religião católica explorava através dos santos a nossa relação
com o medo, que para mim estava ligado ao inferno e ao fogo do mesmo. Sim, medo
de ir para o inferno, e ainda mais medo porque não sabia bem e ainda hoje não
sei, o que fazer concretamente para o evitar!
Na verdade, sentia que fazia e
dizia tanta coisa, mal dita e mal feita, que seria inevitável acabar no inferno
rodeada daqueles santos ensanguentados.
A pergunta que faço: é o que
na verdade, o medo tem a ver com o sagrado e com a minha avó?
Nada, nada mesmo! Eu adorava e
adoro a recordação da minha avó, assim como o meu envolvimento interno e
externo, com o sagrado. Hoje eu sei que aqueles santos são de pau e acho que a
minha avó também sabia. Contudo, naquela altura eu imaginava que durante a
noite, na igreja, eles ganhavam vida e isso era assustador e pavoroso no meu
imaginário de criança. Ainda hoje consigo sentir o medo e o sentimento de
desconforto.
No meu quarto, na casa da
minha avó, havia duas camas, uma de uma e outra de duas pessoas, onde eu
dormia, quase sempre com a minha avó.
Consigo visualizar a minha avó
sentada na cama, com a sua camisa de dormir branca a rezar o seu terço de
contas de madeira escura. Contas brilhantes, de tanto ela lhes passar os dedos,
enquanto eu ficava aninhada junto a ela, ouvindo as rezas e rezando, com ela,
até adormecer. Ainda consigo sentir o aconchego, o conforto, o carinho, a
segurança, o cheiro da minha avó como se fosse hoje.
Ouço o som do mar que tocava
nas paredes da nossa casa e das gaivotas que a sobrevoavam à procura de algum
peixe desprevenido, ou abandonado pelos pescadores no cais.
Sim, a fé da minha avó materna
foi para mim o padrão que me conduziu posteriormente à fé da minha mãe, e hoje,
à fé do meu filho. Não tenho filhas a quem passar este património. Não sei o
que isto significa na minha vida, mas a minha mãe foi a última mulher da minha
família a gerar uma mulher. Sinto que há uma razão para isto, mas ainda não
descobri qual. Representará o fim de um ciclo de passagem de património de
memórias genéticas? É como um beco sem saída, para todos os caminhos que sigo,
não vejo uma mulher que possa gerar no seu útero outro ser, da linhagem
feminina das minhas avós. Materna, nem paterna. Tudo rapazes, parece o fim da
linha, pelo menos é como o sinto!
As ligações familiares, especialmente as
maternais, formam a base da nossa identidade. A avó, muitas vezes a primeira
cuidadora fora do círculo parental imediato, desempenha um papel crucial na
transmissão de valores culturais, espirituais e emocionais.
Por um lado, existe o conforto e a
segurança da fé vivida no espaço íntimo e amoroso da família (o quarto, o
cheiro da avó, o som do mar). Por outro, existe o medo e o temor impostos pela
iconografia e pela teologia institucional (os santos ensanguentados, o inferno,
o pecado). A fé genuína parece residir no amor e no conforto, enquanto a
instituição utiliza o medo como ferramenta de controlo.
As avós, que sabem que os santos são de
pau, representam uma sabedoria intuitiva que transcende a doutrinação pelo
medo. Almejamos uma espiritualidade que se alinhe com o conforto, o carinho e a
segurança (o "cheiro da avó"), em vez de uma fé baseada no terror e
na culpa.
