quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A Fé Pela Mão Das Nossas Avós

 Acredita-se que a herança celular e ou genética da nossa avó materna é determinante para a nossa vida, encarada de uma forma holística, pois ela fornece-nos o património de ADN essencial à nossa vida terrena. É no seu útero que tudo começa…

Vivi um largo período da minha infância, com a minha querida avó materna, sempre muito presente, posso testemunhar a importância que ela teve na minha vida em geral, e em particular no meu percurso religioso.

Foi pela mão da minha querida e amada avó, que inicializei a minha vida espiritual. Foi com ela que aos domingos eu ia à missa, que às quartas-feiras à tarde ia à igreja, para ajudar as mulheres a decorarem os altares com flores pequeninas e branquinhas e varriam a igreja com serradura, depois de terem afastado os compridos bancos de madeira.

Nessas quartas-feiras em que a igreja era um privilégio só meu, e de mais duas ou três senhoras, podia familiarizar-me com as imagens sacras, que ao mesmo tempo que me atraiam, também me amedrontavam os dias e as noites.

Não foi nos domingos, onde a minha igreja se enchia de gente da terra e do mar, que me familiarizei com as figuras que representavam para mim, criança, o sagrado e o temor do mesmo. Nessas quartas-feiras, aprendi a tratar por tu os santos e as santas, sem esquecer o Cristo na cruz, da minha terra natal, onde fui baptizada, e onde fiz a primeira e única comunhão, embora estivesse preparada para a segunda, mas tive que vir para Almada viver com os meus pais ficando a cerimónia oficial por se consumasse.

Na verdade, o medo que imperava na minha relação com o sagrado, os santos e as santas assustavam-me, mais os santos do que as santas.

 Os santos têm sempre sangue, tirando talvez o Santo António que sempre simpatizei com ele, e acho que ele comigo, pois tinha uma flor e um menino ao colo. Esse medo de estar sozinha, com todos aqueles santos e anjos com asas, no meio de tormentas no mar, ou nos altares, ainda hoje me acompanha.

Apenas muito mais tarde percebi que a religião católica explorava através dos santos a nossa relação com o medo, que para mim estava ligado ao inferno e ao fogo do mesmo. Sim, medo de ir para o inferno, e ainda mais medo porque não sabia bem e ainda hoje não sei, o que fazer concretamente para o evitar!

Na verdade, sentia que fazia e dizia tanta coisa, mal dita e mal feita, que seria inevitável acabar no inferno rodeada daqueles santos ensanguentados.

A pergunta que faço: é o que na verdade, o medo tem a ver com o sagrado e com a minha avó?

Nada, nada mesmo! Eu adorava e adoro a recordação da minha avó, assim como o meu envolvimento interno e externo, com o sagrado. Hoje eu sei que aqueles santos são de pau e acho que a minha avó também sabia. Contudo, naquela altura eu imaginava que durante a noite, na igreja, eles ganhavam vida e isso era assustador e pavoroso no meu imaginário de criança. Ainda hoje consigo sentir o medo e o sentimento de desconforto.

No meu quarto, na casa da minha avó, havia duas camas, uma de uma e outra de duas pessoas, onde eu dormia, quase sempre com a minha avó.

Consigo visualizar a minha avó sentada na cama, com a sua camisa de dormir branca a rezar o seu terço de contas de madeira escura. Contas brilhantes, de tanto ela lhes passar os dedos, enquanto eu ficava aninhada junto a ela, ouvindo as rezas e rezando, com ela, até adormecer. Ainda consigo sentir o aconchego, o conforto, o carinho, a segurança, o cheiro da minha avó como se fosse hoje.

Ouço o som do mar que tocava nas paredes da nossa casa e das gaivotas que a sobrevoavam à procura de algum peixe desprevenido, ou abandonado pelos pescadores no cais.


Sim, a fé da minha avó materna foi para mim o padrão que me conduziu posteriormente à fé da minha mãe, e hoje, à fé do meu filho. Não tenho filhas a quem passar este património. Não sei o que isto significa na minha vida, mas a minha mãe foi a última mulher da minha família a gerar uma mulher. Sinto que há uma razão para isto, mas ainda não descobri qual. Representará o fim de um ciclo de passagem de património de memórias genéticas? É como um beco sem saída, para todos os caminhos que sigo, não vejo uma mulher que possa gerar no seu útero outro ser, da linhagem feminina das minhas avós. Materna, nem paterna. Tudo rapazes, parece o fim da linha, pelo menos é como o sinto!

As ligações familiares, especialmente as maternais, formam a base da nossa identidade. A avó, muitas vezes a primeira cuidadora fora do círculo parental imediato, desempenha um papel crucial na transmissão de valores culturais, espirituais e emocionais.

Por um lado, existe o conforto e a segurança da fé vivida no espaço íntimo e amoroso da família (o quarto, o cheiro da avó, o som do mar). Por outro, existe o medo e o temor impostos pela iconografia e pela teologia institucional (os santos ensanguentados, o inferno, o pecado). A fé genuína parece residir no amor e no conforto, enquanto a instituição utiliza o medo como ferramenta de controlo.

As avós, que sabem que os santos são de pau, representam uma sabedoria intuitiva que transcende a doutrinação pelo medo. Almejamos uma espiritualidade que se alinhe com o conforto, o carinho e a segurança (o "cheiro da avó"), em vez de uma fé baseada no terror e na culpa.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A Mulher e a Fé

Minha Deusa que sofrimento me habita desde que me sinto, que sofrimento e tristeza por minha carne, minha mente, sentir, ver e escutar toda esta não existência feminina na terra e esta subjugação do feminino pelo masculino, ambos neste momento dominantemente inconscientes e, portanto, sem significado essencial!


O culto ancestral da Deusa, da Mãe, da Mulher e, por extensão, de Maria, foi intencionalmente e conscientemente arrancado da memória ancestral e do coração inato dos seres humanos, com o objetivo de fazer prevalecer o masculino como referência central em todos os modelos de organização social e de controlo das sociedades humanizadas. Este processo permitiu a consolidação de sistemas religiosos, políticos e económicos assentes numa lógica patriarcal, onde o feminino foi progressivamente silenciado e desvalorizado.

Todas as religiões institucionalizadas são lideradas por homens e, de forma mais ou menos explícita, colocam a mulher à margem das suas hierarquias. A substituição simbólica da Deusa pelo Deus, da Rainha pelo Rei, da Sacerdotisa pelo Sacerdote e da Mãe pelo Pai constituiu um eixo estruturante deste processo de dominação.

Ana Ferreira Martins


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Pirra e Deucalião

Zeus estava espantado com o ódio instaurado entre a humanidade e decidiu exterminar a espécie humana, certo de que esta fora o maior erro que os deuses haviam cometido. Convocado o conselho dos deuses, todos obedeceram e tomaram o caminho do palácio do céu. Esse caminho pode ser visto no céu em todas as noites claras, a chamada Via Láctea. Ao longo dele se acreditavam estar os palácios dos deuses.

Dirigindo-se à assembleia reunida, Zeus expôs as terríveis condições que reinavam na Terra e anunciou que iria destruir todos os homens e criar uma nova raça que fosse mais digna de viver e que soubesse melhor cultuar os deuses. Pensou em destruir com seus raios, mas percebeu que também colocaria em perigo os próprios deuses. Então Zeus decidiu inundar a terra.

O vento norte que espalha as nuvens foi encadeado. O vento sul foi solto e em breve cobriu todo o céu com uma escuridão profunda. As nuvens, empurradas em bloco, romperam-se. Torrentes de chuva caíram. As plantações inundaram-se. Pediu ajuda ao seu irmão Posseidon e este soltou os rios e lançou-os sobre a Terra. Sacudia-a com terremotos lançando o refluxo dos oceanos sobre as praias. Rebanhos, animais, homens, casas e templos foram tragados pelas águas.

De todas as montanhas, apenas a do Parnaso conseguiu ficar acima das águas. Nele o barco de Deucalião - o mais justo dos homens - e Pirra - a mais virtuosa das mulheres - encontrou refúgio. Zeus viu que apenas eles haviam sobrevivido e cessou a tempestade. Poseidon retirou as suas águas.

Em segurança, Deucalião e Pirra dirigiram-se aos deuses para saber como poderiam repovoar a terra criando uma nova raça. Entraram no templo ainda coberto de lama e rogaram à deusa que os esclarecesse sobre a maneira de agir naquela situação. O oráculo respondeu: - Saiam do templo com a cabeça coberta e as vestes desatadas e atirai para trás os ossos de vossa mãe - respondeu o oráculo.

Pirra ficou confusa com o que o oráculo disse. Deucalião pensou seriamente e chegou à conclusão de que se a Terra era a mãe comum de todos e as pedras seriam os seus ossos. Assim resolveram tentar. Velaram o rosto, afrouxaram as vestes, apanharam as pedras e atiraram-nas para trás. As pedras amoleceram e começaram a tomar forma humana. As pedras atiradas pelas mãos do homem tornaram-se homens e aquelas atiradas pelas mãos da mulher tornaram-se mulheres.


Textos complementares/ esclarecedores do mito

Deucalião foi um filho de Prometeu Climene (ou de Prometeu e Pronoea). Sua consorte era Pirra, filha de Epimeteu Pandora. Os dois foram os únicos humanos sobreviventes do dilúvio que deu fim à idade do bronze segundo a mitologia grega.

Mito
O fanatismo religioso havia levado Licaón, rei da Arcádia, a realizar sacrifícios humanos. Ele chegou ao ponto de sacrificar todos os estrangeiros que chegavam a sua casa, violando a sagrada lei da hospitalidade.

Desaprovando essas aberrações, Zeus, o deus dos deuses, fez-se passar por um peregrino e hospedou-se em seu palácio. Licaón preparou-se para sacrificá-lo, assim como havia feito com outros em nome de sua religiosidade. Mas antes mandou cozinhar a carne de um escravo e servir a Zeus. Enfurecido, o deus transformou Licaón em um lobo, e com um raio, incendiou o seu palácio que tinha sido testemunha de tanta crueldade.

Licaón era pai de inúmeros filhos, quase uns 50, tidos com muitas mulheres. Os filhos de Licaón eram tão cruéis quanto o pai e se tornaram famosos por sua insolência e seus crimes. Tão logo ficou sabendo das barbaridades dos filhos de Licaón, Zeus novamente se disfarçou de um velho mendigo e foi ao palácio dos Licaónidas para comprovar os rumores. Os jovens príncipes tiveram a ousadia de assassinar o próprio irmão Níctimo e servir suas entranhas ao hóspede, misturadas com entranhas de animais. Zeus descobriu a crueldade e, enfurecido, converteu todos em lobos e devolveu a vida a Níctimo que sucedeu seu pai no reino da Arcádia.

Enquanto isso, os homens, sem nem desconfiar do que os espera, dedicam-se a suas ocupações terrestres. Mas um deles, Deucalião, rei da cidade de Tia, visita seu pai, o titã Prometeu, que está ainda acorrentado em seu castigo na montanha do Cáucaso. Prometeu, que ama os seres humanos e sabe o que Zeus está projetando, avisa seu filho. Assim que volta para a cidade, Deucalião começa a construir um grande navio de madeira. Deucalião e sua esposa, Pirra, instalaram-se no barco e passaram a morar ali.

Deucalião e Pirra não queriam ser os únicos habitantes neste imenso mundo e desejaram ter o dom de seu antepassado Prometeu, para assim recriar a humanidade. Entraram num templo ainda meio destruído e rogaram a um oráculo para que os esclarecesse sobre a maneira de agir naquela situação. O oráculo respondeu:
"Saiam do templo com a cabeça coberta e as vestes desatadas e atirai para trás os ossos de vossa mãe".

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Madame De Warens - Jean-Jacques Rousseau



Pode ler-se sobre Jean-Jacques Rousseau - “…Madame Warens, que foi para ele ao mesmo tempo mãe, amiga e amante, exerceu uma influência decisiva na sua vida. Na sua estadia na casa desta senhora, Aux Charettes, nas cercanias de Chambéry, pôde ler e instruir-se, passando aí os únicos anos felizes de sua vida…”
Pág.280 História da Filosofia, Nicola Abbagnano, volume VII.
Intrigada sobre o papel desta mulher na vida deste homem, fiz uma pesquisa e constatei a existência de mais uma mulher instruída, empreendedora e inteligente, votada a um papel secundário, invisível e mesmo a uma conduta duvidosa.
Pode ler-se sobre Madame de Warens:
"Madame de Warens é algo mais do que um mero objeto de estudo psicológico, que poderíamos exercer com mais proveito perto de casa. Ela é a única pessoa que pode afirmar ser a professora do homem que foi ele próprio o maior professor do seu século. Quando ele foi até ela, ele era um aprendiz vagabundo em quem ninguém via nada de bom. Ela o criou, socorreu-o, cuidou dele, cercou-o com sua influência consciente e inconsciente; ela foi a única educação que ele recebeu. Quando a deixou, ele não era mais o inútil aprendiz de gravador, mas o mestre supremo de todas as artes que evocam com mais força os ideais e emoções da humanidade. E, como bem foi dito, a idade de ouro que Rousseau desejava trazer de volta à terra era simplesmente uma generalização da vida que ele próprio viveu em Les Charmettes. Podemos ou não abrir agora seus livros. Para a maioria das pessoas, apenas as “Confissões” imortais permanecem. No entanto, Rousseau uma vez moveu o mundo e, quer saibamos disso ou não, a sua influência vive em nós. Quando o crítico curioso recorre a inúmeras respostas dentre nossos sentimentos e crenças atuais e procura decifrar a imagem apagada e a inscrição, é o aluno de Madame de Warens que ele encontra."
Ana Ferreira Martins