segunda-feira, 15 de junho de 2026

Mulher Plena Num Mundo de Homens

 

Nota Da Autora

Escrevo este livro depois de uma vida inteira a trabalhar com mulheres que carregam o peso do silêncio, da culpa, da submissão e da perda de si. Mas escrevo-o, acima de tudo, a partir da minha própria travessia — feita de quedas, confrontos, escolhas difíceis e de uma busca intuitiva e persistente pela minha essência feminina, quase impossível de olhar, pois a tecedeira dessa essência foi sufocada por um tecido social masculinizado.


Não pretendo apresentar verdades absolutas. Pretendo, sim, abrir caminhos. Caminhos que tantas de nós nunca ousámos percorrer, porque fomos ensinadas a duvidar de nós próprias, a servir antes de existir, a calar antes de sentir.

Este livro nasce da minha experiência profissional e humana, da escuta ativa de centenas de mulheres, das histórias que marcaram o meu corpo, a minha voz e o meu olhar. Nasce também do desejo irredutível de nomear a opressão subtil e invisível que ainda atravessa a vida de cada uma de nós, mesmo daquelas que se julgam livres.

Agradeço a quem se cruzou no meu caminho de busca e me estendeu a mão nesta jornada cheia de altos e baixos, de pausas e de avanços. Foram muitas as pessoas, umas conscientes do seu contributo, outras não, que alimentaram a coragem necessária para editar este livro

Que este livro possa ser um instrumento digno, um espelho e, para quem precisar, uma seta apontada ao crescimento interior. Que cada mulher reencontre, dentro de si, a essência do ser feminino, a mulher real que lhe foi sonegada.

Nunca como hoje se torna tão pertinente esta reflexão. Vivemos num tempo em que os direitos e liberdades conquistados pelas mulheres, frutos de lutas históricas, são desafiados e, por vezes, ameaçados. Este livro surge, portanto, não apenas como memória e experiência, mas como um convite à vigilância, à consciência e à coragem de cada mulher em defender a própria essência e a liberdade de existir plenamente.

Ana Ferreira Martins
Investigadora e escritora


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A Fé Pela Mão Das Nossas Avós

 Acredita-se que a herança celular e ou genética da nossa avó materna é determinante para a nossa vida, encarada de uma forma holística, pois ela fornece-nos o património de ADN essencial à nossa vida terrena. É no seu útero que tudo começa…

Vivi um largo período da minha infância, com a minha querida avó materna, sempre muito presente, posso testemunhar a importância que ela teve na minha vida em geral, e em particular no meu percurso religioso.

Foi pela mão da minha querida e amada avó, que inicializei a minha vida espiritual. Foi com ela que aos domingos eu ia à missa, que às quartas-feiras à tarde ia à igreja, para ajudar as mulheres a decorarem os altares com flores pequeninas e branquinhas e varriam a igreja com serradura, depois de terem afastado os compridos bancos de madeira.

Nessas quartas-feiras em que a igreja era um privilégio só meu, e de mais duas ou três senhoras, podia familiarizar-me com as imagens sacras, que ao mesmo tempo que me atraiam, também me amedrontavam os dias e as noites.

Não foi nos domingos, onde a minha igreja se enchia de gente da terra e do mar, que me familiarizei com as figuras que representavam para mim, criança, o sagrado e o temor do mesmo. Nessas quartas-feiras, aprendi a tratar por tu os santos e as santas, sem esquecer o Cristo na cruz, da minha terra natal, onde fui baptizada, e onde fiz a primeira e única comunhão, embora estivesse preparada para a segunda, mas tive que vir para Almada viver com os meus pais ficando a cerimónia oficial por se consumasse.

Na verdade, o medo que imperava na minha relação com o sagrado, os santos e as santas assustavam-me, mais os santos do que as santas.

 Os santos têm sempre sangue, tirando talvez o Santo António que sempre simpatizei com ele, e acho que ele comigo, pois tinha uma flor e um menino ao colo. Esse medo de estar sozinha, com todos aqueles santos e anjos com asas, no meio de tormentas no mar, ou nos altares, ainda hoje me acompanha.

Apenas muito mais tarde percebi que a religião católica explorava através dos santos a nossa relação com o medo, que para mim estava ligado ao inferno e ao fogo do mesmo. Sim, medo de ir para o inferno, e ainda mais medo porque não sabia bem e ainda hoje não sei, o que fazer concretamente para o evitar!

Na verdade, sentia que fazia e dizia tanta coisa, mal dita e mal feita, que seria inevitável acabar no inferno rodeada daqueles santos ensanguentados.

A pergunta que faço: é o que na verdade, o medo tem a ver com o sagrado e com a minha avó?

Nada, nada mesmo! Eu adorava e adoro a recordação da minha avó, assim como o meu envolvimento interno e externo, com o sagrado. Hoje eu sei que aqueles santos são de pau e acho que a minha avó também sabia. Contudo, naquela altura eu imaginava que durante a noite, na igreja, eles ganhavam vida e isso era assustador e pavoroso no meu imaginário de criança. Ainda hoje consigo sentir o medo e o sentimento de desconforto.

No meu quarto, na casa da minha avó, havia duas camas, uma de uma e outra de duas pessoas, onde eu dormia, quase sempre com a minha avó.

Consigo visualizar a minha avó sentada na cama, com a sua camisa de dormir branca a rezar o seu terço de contas de madeira escura. Contas brilhantes, de tanto ela lhes passar os dedos, enquanto eu ficava aninhada junto a ela, ouvindo as rezas e rezando, com ela, até adormecer. Ainda consigo sentir o aconchego, o conforto, o carinho, a segurança, o cheiro da minha avó como se fosse hoje.

Ouço o som do mar que tocava nas paredes da nossa casa e das gaivotas que a sobrevoavam à procura de algum peixe desprevenido, ou abandonado pelos pescadores no cais.


Sim, a fé da minha avó materna foi para mim o padrão que me conduziu posteriormente à fé da minha mãe, e hoje, à fé do meu filho. Não tenho filhas a quem passar este património. Não sei o que isto significa na minha vida, mas a minha mãe foi a última mulher da minha família a gerar uma mulher. Sinto que há uma razão para isto, mas ainda não descobri qual. Representará o fim de um ciclo de passagem de património de memórias genéticas? É como um beco sem saída, para todos os caminhos que sigo, não vejo uma mulher que possa gerar no seu útero outro ser, da linhagem feminina das minhas avós. Materna, nem paterna. Tudo rapazes, parece o fim da linha, pelo menos é como o sinto!

As ligações familiares, especialmente as maternais, formam a base da nossa identidade. A avó, muitas vezes a primeira cuidadora fora do círculo parental imediato, desempenha um papel crucial na transmissão de valores culturais, espirituais e emocionais.

Por um lado, existe o conforto e a segurança da fé vivida no espaço íntimo e amoroso da família (o quarto, o cheiro da avó, o som do mar). Por outro, existe o medo e o temor impostos pela iconografia e pela teologia institucional (os santos ensanguentados, o inferno, o pecado). A fé genuína parece residir no amor e no conforto, enquanto a instituição utiliza o medo como ferramenta de controlo.

As avós, que sabem que os santos são de pau, representam uma sabedoria intuitiva que transcende a doutrinação pelo medo. Almejamos uma espiritualidade que se alinhe com o conforto, o carinho e a segurança (o "cheiro da avó"), em vez de uma fé baseada no terror e na culpa.

https://draft.blogger.com/blog/post/edit/1849180516377773910/5454102275067579713

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A Mulher e a Fé

Minha Deusa que sofrimento me habita desde que me sinto, que sofrimento e tristeza por minha carne, minha mente, sentir, ver e escutar toda esta não existência feminina na terra e esta subjugação do feminino pelo masculino, ambos neste momento dominantemente inconscientes e, portanto, sem significado essencial!


O culto ancestral da Deusa, da Mãe, da Mulher e, por extensão, de Maria, foi intencionalmente e conscientemente arrancado da memória ancestral e do coração inato dos seres humanos, com o objetivo de fazer prevalecer o masculino como referência central em todos os modelos de organização social e de controlo das sociedades humanizadas. Este processo permitiu a consolidação de sistemas religiosos, políticos e económicos assentes numa lógica patriarcal, onde o feminino foi progressivamente silenciado e desvalorizado.

Todas as religiões institucionalizadas são lideradas por homens e, de forma mais ou menos explícita, colocam a mulher à margem das suas hierarquias. A substituição simbólica da Deusa pelo Deus, da Rainha pelo Rei, da Sacerdotisa pelo Sacerdote e da Mãe pelo Pai constituiu um eixo estruturante deste processo de dominação.

Ana Ferreira Martins