quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A Fé Pela Mão Das Nossas Avós

 Acredita-se que a herança celular e ou genética da nossa avó materna é determinante para a nossa vida, encarada de uma forma holística, pois ela fornece-nos o património de ADN essencial à nossa vida terrena. É no seu útero que tudo começa…

Vivi um largo período da minha infância, com a minha querida avó materna, sempre muito presente, posso testemunhar a importância que ela teve na minha vida em geral, e em particular no meu percurso religioso.

Foi pela mão da minha querida e amada avó, que inicializei a minha vida espiritual. Foi com ela que aos domingos eu ia à missa, que às quartas-feiras à tarde ia à igreja, para ajudar as mulheres a decorarem os altares com flores pequeninas e branquinhas e varriam a igreja com serradura, depois de terem afastado os compridos bancos de madeira.

Nessas quartas-feiras em que a igreja era um privilégio só meu, e de mais duas ou três senhoras, podia familiarizar-me com as imagens sacras, que ao mesmo tempo que me atraiam, também me amedrontavam os dias e as noites.

Não foi nos domingos, onde a minha igreja se enchia de gente da terra e do mar, que me familiarizei com as figuras que representavam para mim, criança, o sagrado e o temor do mesmo. Nessas quartas-feiras, aprendi a tratar por tu os santos e as santas, sem esquecer o Cristo na cruz, da minha terra natal, onde fui baptizada, e onde fiz a primeira e única comunhão, embora estivesse preparada para a segunda, mas tive que vir para Almada viver com os meus pais ficando a cerimónia oficial por se consumasse.

Na verdade, o medo que imperava na minha relação com o sagrado, os santos e as santas assustavam-me, mais os santos do que as santas.

 Os santos têm sempre sangue, tirando talvez o Santo António que sempre simpatizei com ele, e acho que ele comigo, pois tinha uma flor e um menino ao colo. Esse medo de estar sozinha, com todos aqueles santos e anjos com asas, no meio de tormentas no mar, ou nos altares, ainda hoje me acompanha.

Apenas muito mais tarde percebi que a religião católica explorava através dos santos a nossa relação com o medo, que para mim estava ligado ao inferno e ao fogo do mesmo. Sim, medo de ir para o inferno, e ainda mais medo porque não sabia bem e ainda hoje não sei, o que fazer concretamente para o evitar!

Na verdade, sentia que fazia e dizia tanta coisa, mal dita e mal feita, que seria inevitável acabar no inferno rodeada daqueles santos ensanguentados.

A pergunta que faço: é o que na verdade, o medo tem a ver com o sagrado e com a minha avó?

Nada, nada mesmo! Eu adorava e adoro a recordação da minha avó, assim como o meu envolvimento interno e externo, com o sagrado. Hoje eu sei que aqueles santos são de pau e acho que a minha avó também sabia. Contudo, naquela altura eu imaginava que durante a noite, na igreja, eles ganhavam vida e isso era assustador e pavoroso no meu imaginário de criança. Ainda hoje consigo sentir o medo e o sentimento de desconforto.

No meu quarto, na casa da minha avó, havia duas camas, uma de uma e outra de duas pessoas, onde eu dormia, quase sempre com a minha avó.

Consigo visualizar a minha avó sentada na cama, com a sua camisa de dormir branca a rezar o seu terço de contas de madeira escura. Contas brilhantes, de tanto ela lhes passar os dedos, enquanto eu ficava aninhada junto a ela, ouvindo as rezas e rezando, com ela, até adormecer. Ainda consigo sentir o aconchego, o conforto, o carinho, a segurança, o cheiro da minha avó como se fosse hoje.

Ouço o som do mar que tocava nas paredes da nossa casa e das gaivotas que a sobrevoavam à procura de algum peixe desprevenido, ou abandonado pelos pescadores no cais.


Sim, a fé da minha avó materna foi para mim o padrão que me conduziu posteriormente à fé da minha mãe, e hoje, à fé do meu filho. Não tenho filhas a quem passar este património. Não sei o que isto significa na minha vida, mas a minha mãe foi a última mulher da minha família a gerar uma mulher. Sinto que há uma razão para isto, mas ainda não descobri qual. Representará o fim de um ciclo de passagem de património de memórias genéticas? É como um beco sem saída, para todos os caminhos que sigo, não vejo uma mulher que possa gerar no seu útero outro ser, da linhagem feminina das minhas avós. Materna, nem paterna. Tudo rapazes, parece o fim da linha, pelo menos é como o sinto!

As ligações familiares, especialmente as maternais, formam a base da nossa identidade. A avó, muitas vezes a primeira cuidadora fora do círculo parental imediato, desempenha um papel crucial na transmissão de valores culturais, espirituais e emocionais.

Por um lado, existe o conforto e a segurança da fé vivida no espaço íntimo e amoroso da família (o quarto, o cheiro da avó, o som do mar). Por outro, existe o medo e o temor impostos pela iconografia e pela teologia institucional (os santos ensanguentados, o inferno, o pecado). A fé genuína parece residir no amor e no conforto, enquanto a instituição utiliza o medo como ferramenta de controlo.

As avós, que sabem que os santos são de pau, representam uma sabedoria intuitiva que transcende a doutrinação pelo medo. Almejamos uma espiritualidade que se alinhe com o conforto, o carinho e a segurança (o "cheiro da avó"), em vez de uma fé baseada no terror e na culpa.

https://draft.blogger.com/blog/post/edit/1849180516377773910/5454102275067579713

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A Mulher e a Fé

Minha Deusa que sofrimento me habita desde que me sinto, que sofrimento e tristeza por minha carne, minha mente, sentir, ver e escutar toda esta não existência feminina na terra e esta subjugação do feminino pelo masculino, ambos neste momento dominantemente inconscientes e, portanto, sem significado essencial!


O culto ancestral da Deusa, da Mãe, da Mulher e, por extensão, de Maria, foi intencionalmente e conscientemente arrancado da memória ancestral e do coração inato dos seres humanos, com o objetivo de fazer prevalecer o masculino como referência central em todos os modelos de organização social e de controlo das sociedades humanizadas. Este processo permitiu a consolidação de sistemas religiosos, políticos e económicos assentes numa lógica patriarcal, onde o feminino foi progressivamente silenciado e desvalorizado.

Todas as religiões institucionalizadas são lideradas por homens e, de forma mais ou menos explícita, colocam a mulher à margem das suas hierarquias. A substituição simbólica da Deusa pelo Deus, da Rainha pelo Rei, da Sacerdotisa pelo Sacerdote e da Mãe pelo Pai constituiu um eixo estruturante deste processo de dominação.

Ana Ferreira Martins


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Pirra e Deucalião

Zeus estava espantado com o ódio instaurado entre a humanidade e decidiu exterminar a espécie humana, certo de que esta fora o maior erro que os deuses haviam cometido. Convocado o conselho dos deuses, todos obedeceram e tomaram o caminho do palácio do céu. Esse caminho pode ser visto no céu em todas as noites claras, a chamada Via Láctea. Ao longo dele se acreditavam estar os palácios dos deuses.

Dirigindo-se à assembleia reunida, Zeus expôs as terríveis condições que reinavam na Terra e anunciou que iria destruir todos os homens e criar uma nova raça que fosse mais digna de viver e que soubesse melhor cultuar os deuses. Pensou em destruir com seus raios, mas percebeu que também colocaria em perigo os próprios deuses. Então Zeus decidiu inundar a terra.

O vento norte que espalha as nuvens foi encadeado. O vento sul foi solto e em breve cobriu todo o céu com uma escuridão profunda. As nuvens, empurradas em bloco, romperam-se. Torrentes de chuva caíram. As plantações inundaram-se. Pediu ajuda ao seu irmão Posseidon e este soltou os rios e lançou-os sobre a Terra. Sacudia-a com terremotos lançando o refluxo dos oceanos sobre as praias. Rebanhos, animais, homens, casas e templos foram tragados pelas águas.

De todas as montanhas, apenas a do Parnaso conseguiu ficar acima das águas. Nele o barco de Deucalião - o mais justo dos homens - e Pirra - a mais virtuosa das mulheres - encontrou refúgio. Zeus viu que apenas eles haviam sobrevivido e cessou a tempestade. Poseidon retirou as suas águas.

Em segurança, Deucalião e Pirra dirigiram-se aos deuses para saber como poderiam repovoar a terra criando uma nova raça. Entraram no templo ainda coberto de lama e rogaram à deusa que os esclarecesse sobre a maneira de agir naquela situação. O oráculo respondeu: - Saiam do templo com a cabeça coberta e as vestes desatadas e atirai para trás os ossos de vossa mãe - respondeu o oráculo.

Pirra ficou confusa com o que o oráculo disse. Deucalião pensou seriamente e chegou à conclusão de que se a Terra era a mãe comum de todos e as pedras seriam os seus ossos. Assim resolveram tentar. Velaram o rosto, afrouxaram as vestes, apanharam as pedras e atiraram-nas para trás. As pedras amoleceram e começaram a tomar forma humana. As pedras atiradas pelas mãos do homem tornaram-se homens e aquelas atiradas pelas mãos da mulher tornaram-se mulheres.


Textos complementares/ esclarecedores do mito

Deucalião foi um filho de Prometeu Climene (ou de Prometeu e Pronoea). Sua consorte era Pirra, filha de Epimeteu Pandora. Os dois foram os únicos humanos sobreviventes do dilúvio que deu fim à idade do bronze segundo a mitologia grega.

Mito
O fanatismo religioso havia levado Licaón, rei da Arcádia, a realizar sacrifícios humanos. Ele chegou ao ponto de sacrificar todos os estrangeiros que chegavam a sua casa, violando a sagrada lei da hospitalidade.

Desaprovando essas aberrações, Zeus, o deus dos deuses, fez-se passar por um peregrino e hospedou-se em seu palácio. Licaón preparou-se para sacrificá-lo, assim como havia feito com outros em nome de sua religiosidade. Mas antes mandou cozinhar a carne de um escravo e servir a Zeus. Enfurecido, o deus transformou Licaón em um lobo, e com um raio, incendiou o seu palácio que tinha sido testemunha de tanta crueldade.

Licaón era pai de inúmeros filhos, quase uns 50, tidos com muitas mulheres. Os filhos de Licaón eram tão cruéis quanto o pai e se tornaram famosos por sua insolência e seus crimes. Tão logo ficou sabendo das barbaridades dos filhos de Licaón, Zeus novamente se disfarçou de um velho mendigo e foi ao palácio dos Licaónidas para comprovar os rumores. Os jovens príncipes tiveram a ousadia de assassinar o próprio irmão Níctimo e servir suas entranhas ao hóspede, misturadas com entranhas de animais. Zeus descobriu a crueldade e, enfurecido, converteu todos em lobos e devolveu a vida a Níctimo que sucedeu seu pai no reino da Arcádia.

Enquanto isso, os homens, sem nem desconfiar do que os espera, dedicam-se a suas ocupações terrestres. Mas um deles, Deucalião, rei da cidade de Tia, visita seu pai, o titã Prometeu, que está ainda acorrentado em seu castigo na montanha do Cáucaso. Prometeu, que ama os seres humanos e sabe o que Zeus está projetando, avisa seu filho. Assim que volta para a cidade, Deucalião começa a construir um grande navio de madeira. Deucalião e sua esposa, Pirra, instalaram-se no barco e passaram a morar ali.

Deucalião e Pirra não queriam ser os únicos habitantes neste imenso mundo e desejaram ter o dom de seu antepassado Prometeu, para assim recriar a humanidade. Entraram num templo ainda meio destruído e rogaram a um oráculo para que os esclarecesse sobre a maneira de agir naquela situação. O oráculo respondeu:
"Saiam do templo com a cabeça coberta e as vestes desatadas e atirai para trás os ossos de vossa mãe".

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Madame De Warens - Jean-Jacques Rousseau



Pode ler-se sobre Jean-Jacques Rousseau - “…Madame Warens, que foi para ele ao mesmo tempo mãe, amiga e amante, exerceu uma influência decisiva na sua vida. Na sua estadia na casa desta senhora, Aux Charettes, nas cercanias de Chambéry, pôde ler e instruir-se, passando aí os únicos anos felizes de sua vida…”
Pág.280 História da Filosofia, Nicola Abbagnano, volume VII.
Intrigada sobre o papel desta mulher na vida deste homem, fiz uma pesquisa e constatei a existência de mais uma mulher instruída, empreendedora e inteligente, votada a um papel secundário, invisível e mesmo a uma conduta duvidosa.
Pode ler-se sobre Madame de Warens:
"Madame de Warens é algo mais do que um mero objeto de estudo psicológico, que poderíamos exercer com mais proveito perto de casa. Ela é a única pessoa que pode afirmar ser a professora do homem que foi ele próprio o maior professor do seu século. Quando ele foi até ela, ele era um aprendiz vagabundo em quem ninguém via nada de bom. Ela o criou, socorreu-o, cuidou dele, cercou-o com sua influência consciente e inconsciente; ela foi a única educação que ele recebeu. Quando a deixou, ele não era mais o inútil aprendiz de gravador, mas o mestre supremo de todas as artes que evocam com mais força os ideais e emoções da humanidade. E, como bem foi dito, a idade de ouro que Rousseau desejava trazer de volta à terra era simplesmente uma generalização da vida que ele próprio viveu em Les Charmettes. Podemos ou não abrir agora seus livros. Para a maioria das pessoas, apenas as “Confissões” imortais permanecem. No entanto, Rousseau uma vez moveu o mundo e, quer saibamos disso ou não, a sua influência vive em nós. Quando o crítico curioso recorre a inúmeras respostas dentre nossos sentimentos e crenças atuais e procura decifrar a imagem apagada e a inscrição, é o aluno de Madame de Warens que ele encontra."
Ana Ferreira Martins

domingo, 24 de dezembro de 2023

O Espírito de Natal

 O Espírito de Natal

Que celebração do espírito de natal é esta, que a história real ou romantizada, que está envolta no contrário que a anima?
No palco da hipocrisia religiosa, ou melhor, judaico-cristã, onde se deve sentir Paz e Amor, vê-se ódio e sangue de inocentes espalhados no palco real e virtual das nossas vidas. Toda esta época dita natalícia, é embrulhada no papel da vergonha por seres humanos, que na impossibilidade de se ultrapassarem na sua dimensão sombria e maléfica, reiteram à sombra de falsas premissas religiosas que manipulam desde sempre a humanidade conduzindo-a para formas de ser e de estar vergonhosamente violentas.
A ficção ultrapassa a realidade, como se pode realmente de forma consciente celebrar através de actos claramente alienados e mecanizados uma data religiosa, que simboliza a paz, o amor, a harmonia, a solidariedade, a vida, se neste mesmo momento, almas em corpos humanos choram a perca de entes queridos, mortos por uma guerra secular, entre povos crentes, que como todas as guerras só provocam sofrimento atroz e bárbaro que em nada dignificam o ser humano, que se pretende desenvolvido nas suas melhores dimensões, que inegavelmente as tem.
Está cada vez mais difícil para o comum dos mortais, compactuar com a hipocrisia dos líderes que promovem e compactuam de forma mais ou menos evidente com estes dramas humanos, que em nada dignificam ou celebram o amor, a justiça, o respeito, a aceitação, a flexibilidade, e o conforto de nos sentirmos acolhidos nesta terra, que é de todos e que os animais irracionais, territoriais, a querem só para eles!
Como gostaria de poder celebrar com toda a humanidade as dimensões criativas e respeitosamente dignas que uma grande parte de nós humanos temos e conseguimos manifestar no quotidiano das nossas ações e palavras. Essa grande dignidade que os seres humanos são capazes de expressar!...É com esta esperança, que nunca me abandona e caracteriza, que me visto nestes dias e em todos os outros que passaram e que estão para vir.
Lembremo-nos dos nossos irmãos e irmãs que por todo o mundo sofrem sem terem nada nem ninguém que lhes estenda um olhar, uma mão, um pão, um copo de água limpa.
Vamos celebrar de uma forma consciente e solidária esta época natalícia. Desejo a quem Lê este desabafo uns dias de saudável reflexão e partilha.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

O Super Humano Por Nascer

Pandora


  
O Super Humano Por Nascer


Se o sexo fosse todo igual não existiria o seu ideal
Para uns tabu, para outros, banalizado
O amor sexual, nada tem de sensual
Por uns, amado, por outros, odiado.


Somos escravos de um corpo carnal
Confunde-se corpo com sexo e pornografia
Sexo por sexo é dor emocional 
Um corpo é uma vergonha mostrar
Mentira, manipulação, hipocrisia
São uma vergonha expressar

Sexo com amor é um fogo penoso
Condição sem piedade
O sexo por sexo é um incêndio pecaminoso
a ratoeira da humanidade.


O sexo amoroso é a manifestação do ser
O amor consciente, está para além do viver
O ideal mistura-se com a mente
Os corpos iludem-se com prazer
Une a carne com o espirito e a mente
Concebe um super humano, que está por nascer.

Ana Ferreira Martins

16/8/2023

terça-feira, 11 de abril de 2023

A Mulher e a Moda

Os grandes costureiros, na sua maioria, são homens, o que torna ainda mais complexa a análise do fenómeno. Homens gays, o que quer dizer que os modelos são idealizados para que as mulheres encaixem no ideal de beleza, não de homens que gostam de mulheres, mas sim de homens que gostam de homens, e que, com ou sem consciência disso,  idealizam e ou constroem, uma mulher que não lhes faça concorrência. 

Uma mulher sem curvas, sem seios, escanzelada, de dar dó! 

As modelos não sorriem, não são sedutoras, nem nos movimentos, nem nas formas, são demasiado magras, demasiado jovens e sobretudo demasiado sem graça, sem brilho, tristes, cinzentas, sem charme, encanto, sem essência feminina que lhes ilumine o ser e o corpo.

https://femininamiscelanea2.blogspot.com/2023/04/a-mulher-e-moda.html 

Ana Ferreira Martins

quarta-feira, 1 de março de 2023

Sonhos de Criança

Quando era miúda tinha um sonho, como seria tudo mais fácil se os pensamentos, sentimentos, emoções, intuições, entrassem directamente na cabeça do outro e ou da outra e vice-versa…, assim teríamos que viver com a sinceridade, a falsidade e a ambivalência dos nossos pensamentos, enfim com a verdade essencial da existência!... e ficariam as emoções, será que as emoções também são ambivalentes como os pensamentos? Ou as emoções são algo que não precisamos decorar ou apontar na agenda porque simplesmente elas ficam marcadas nas nossas células, no nosso coração!...

O que eu mais aprecio nas emoções é que não precisamos de as apontar ou tirar fotos, para que fiquem bem registadas nas nossas memórias, o mesmo já não posso dizer em relação aos pensamentos, que por mais que queiramos retê-los pela sua qualidade ou necessidade, a maior parte das vezes não o conseguimos fazer.

Os pensamentos, podem esquecer-se senão os apontarmos, mas as emoções, essas, ficam marcadas no nosso sentir, e podemos com maior ou menor esforço recuperá-las desde o inicio da nossa existência humana, ou quem sabe espiritual.

A emoção que sentimos quando o comboio partiu e na estação vemos o rosto choroso da nossa avó que ficou para traz!...sim, essas emoções, sensações nunca nos abandonam durante toda a vida!...os pensamentos são efémeros, por serem mentais e não pertencerem à vivência visceral da nossa existência não física.

Sim também sei que me pressinto preguiçosa e a vida não me tem mostrado o caminho na direcção do aprofundamento a minha essência!...também sei que tenho vivido para e em função do exterior em detrimento de mim mesma e dividida entre a razão e a emoção que esta atitude implica!...

Visível e marcadamente as minhas prioridades intelectuais manifestas nos vários domínios da minha vida estão marcadas por uma dimensão extrínseca à minha essência e focalizada numa existência do quotidiano terreno, duma visão idealizada das sociedades humanas!...

Vi-me empurrada para não dizer “forçada” a ser uma líder detentora de uma racionalidade que não é minha por essência, que nunca foi!... fui brutalmente socializada e aculturada pelo modelo dominante, pelo mundo concebido pelos homens, para os homens!... Esse modelo racional e lógico pesa-me!...sempre me pesou!…

É-me vital e absolutamente necessário aliviar o fardo de modo a me sentir leve, luminosa e poder voar nas assas das estrelas luminosas e inatingíveis através dos cinco sentidos que nos pertencem.

https://draft.blogger.com/blog/post/edit/1849180516377773910/6979056262553846921

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Discursos À Margem

Discursos à Margem

Em dia de baptizado de uma linda menina fruto de uma relação fora dos padrões convencionais. Famílias de classe média alta e que, portanto, a diferenciação em relação aos padrões dominantes da sociedade portuguesa é aceite e até olhada com uma certa deferência, por um lado e medo do diferente pela generalidade.

O acesso ao dinheiro confere independência e possibilita uma falsa sensação de autonomia da mulher face ao homem e à sociedade patriarcal em geral. Pois geralmente esta autonomia está completamente e fortemente vinculada ao modelo capitalista e patriarcal. 
As mulheres independentes economicamente tornam-se um alvo mais atractivo para o homem “agarrar” e mais facilmente “desagarrar”, elas sem disso terem consciência pensam que dominam a situação, mas na verdade frequentemente veem-se mais e mais sobrecarregadas com as responsabilidades e com as filhas e os filhos que esses homens lhes vão deixando, numa versão mais ou menos moderna, mais ou menos politicamente correta.

Bom, mas dias de festa, são dias de celebração e como habitual num baptizado ou em qualquer tipo de evento social independentemente da classe social que estejamos a falar, as mulheres formam um grupo na mesa e os homens, outro.

A conversa estabelece-se em torno das grandes e incontornáveis dificuldades em compatibilizar a circunstância de serem mães trabalhadoras e a vida familiar e pessoal.

As respostas institucionais não funcionam em função da optimização do equilíbrio entre estas variáveis e, portanto, a qualidade de vida destas mulheres é sistematicamente ignorada. As instituições da segurança social e do sector privado sem ainda terem consciencializado e interiorizado a necessidade de (re)pensar no bem estar das mulheres depois da sua entrada no mercado de trabalho, concebido à luz das características dos homens, não asseguram de forma articulada com as entidades empregadoras a qualidade de vida e a saúde destas mulheres e crianças que se vêm privadas umas das outras sem que ninguém grite bem alto, que as sociedades humanas precisam do amor e cuidados das mães para que no futuro sejam sociedades onde o amor seja uma realidade e não sejamos simplesmente robôs educados à luz de belas teorias da educação e de desenvolvimento psicológico onde raras vezes se encontra a menção à relação amorosa que a criança e a sua mãe estabelecem ainda útero desta. É importante e essencial para a harmonia das sociedades, que se mantenha nos primeiros anos de vida dos serem humanos esta dialética afetiva.

As instituições fazem uma gestão baseada nas leis elaboradas à luz do modelo patriarcal, onde as mulheres e os homens não foram ouvidos na sua elaboração. Fazem a aplicação das mesmas à volta da optimização dos escassos recursos financeiros, humanos e materiais, imposições e directrizes que respiram os ares do modelo de gestão capitalista patriarcal que ignora e faz tábua rasa do fato de o mercado de trabalho ter sido invadido por mulheres que querem ter os mesmos direitos que os homens num mundo dominado há séculos pelos mesmos e que se vêm completamente cilindradas pela acumulação brutal de actividades. Exigências que a sociedade moderna lhes impõe através das leis mas também e de forma ainda mais perigosa através de um modelo publicitário que o marketing operacionaliza de forma sistematizada e eficaz.

Voltando ao grupo de mulheres, as mais jovens estão a braços com a situação de não ter onde deixar as suas crianças de modo a irem trabalhar nos horários pré-estabelecidos e de acordo com as necessidades dos serviços. Por um motivo, ou por outro, todos eles de ordem operacional, lógicos e racionais, mas que assim sendo não se compreende não comtemplarem a necessidade de correspondência entre o horário de trabalho, o horário das instituições que acolhem crianças e outras necessidades que as sociedades obrigam e vendem, como, o lazer, o desporto, a cultura e os cuidados de beleza esperados e desejados a todas as mulheres!...como por exemplo, unhas arranjadas, cabelos arranjados, bem vestidas e senão maquilhadas visivelmente de rosto e corpo tratado, sob pena de não serem consideradas umas ”senhoras” no local de trabalho ou nas reuniões ou eventos sociais onde os seus maridos, companheiros, ex companheiros as acompanham ou de quem se fazem acompanhar, depende da postura que lhes for mais conveniente.

Bom, depois deste rol extenso de coisas ao cuidado, responsabilidade e gestão da mulher, chega-se ao culminar impactante, do pesado sentimento de culpa expresso por uma das mulheres. Encontra-se separada, com guarda conjunta de dois rapazinhos ainda pequenos, o mais velho de 7 anos, tendo a mesma verbalizado o sentimento de culpa em não conseguir manter o equilíbrio emocional na relação quotidiana com os filhos, tendo que recorrer, em vez do psicólogo ao psiquiatra, pois precisava com urgência de parar os gritos, com que mascarava a aflição de não conseguir ser uma boa mãe. As consultas de psicoterapia ficaram para traz, pois exigiam um tempo para si que não tem e o seu ordenado de técnica superior, não lhe permite auferir de tal luxo.

A heterogeneidade própria de cada uma das mulheres deste pequeno grupo representa de uma forma bastante clara a realidade das mulheres no mundo actual. Casada com filhos, separada com guarda conjunta, companheira sem filhos e família reconstruída com um filho e dois enteados. Todas nós conscientes dos problemas que esta sociedade nos coloca. A casada com três filhos vive mais tempo sozinha do que com o marido pois este está frequentemente ausente em trabalho fora do país.

O que nos uniu foi a consciência de que o sistema não está do nosso lado e de que estamos ou estivemos ou iremos estar à beira de um ataque de nervos quando tivermos que compatibilizar o trabalho com os filho(a)s e a necessidade absoluta em termos tempo para nós próprias e para o nosso equilíbrio.

É verdade que o quotidiano da generalidade das mulheres é uma desgraça!...dar, dar, dar e mais dar, e não se dão a si próprias!... é como se a sua existência se realizasse através da sua anulação. É como se não existissem!...é uma não existência!...pois não se lhe atribui valor existencial. O seu eu, não tem importância para si e, portanto, os outros não lha conferem!...quando acorda, se o chega a fazer é muitas vezes tarde demais e a ruptura com o passado é inevitável, não há como remendar um pano que não existe!...triste, mas real!...

AMFM

29/03/2022




terça-feira, 27 de abril de 2021

O Controle das Emoções e Intuições das Mulheres

Perséfone: Deusa da Intuição
O Controle das dimensões emocionais e intuitivas das Mulheres

Patriarcado tem controlado de diversas formas:

Pela força física, religião, política, os comportamentos e as ações das mulheres, mas não o ato da criação fisiológica, mental e espiritual.

É aí, portanto, que permanece inviolável a força natural da mulher. A força, que por uma razão ou por outra, a mulher conseguiu com maior ou menor consciência e dificuldade, escapar à malha apertada da teia de controlo que teceram ao redor da dimensão feminina da humanidade.

É no mundo do inconsciente que residem a maioria das nossas emoções e intuições, é nele que temos que procurar-nos! Temos que tornar consciente o que nos foi de forma óbvia, vedado, desvalorizado, ridicularizado. É neste inconsciente feminino que embora invejado, porque desconhecido e inacessível, por séculos e séculos de escravidão, que temos que nos encontrar para procedermos à  reconstrução da nossa identidade feminina. As sociedades humanas precisam desse resgate, para evoluírem para além do que hoje conhecemos.

Ana Ferreira Martins



































quinta-feira, 15 de abril de 2021

Conversa sustentabilidade e pobreza menstrual

Sobre pobreza e sustentabilidade menstrual. Um tema que importa discutir e reflectir para tornar as sociedades mais justas e inclusivas. Onde o direito ao bem estar social, seja universal e democrático. Veja aqui!...

domingo, 13 de dezembro de 2020

A Dor Da Criação


A dor da criação
Vestem-se de cinzento e branco, às vezes preto, não têm a maternidade como prioridade nas suas vidas, o sonho é o sucesso profissional de acordo com a definição de sucesso que o mundo dos homens estabeleceu para eles e que elas aceitaram como igualitário e portanto desejável.
Os filhos só surgem depois de materializadas algumas das muitas condições económicas instituídas pela sociedade capitalista para que a mulher disponibilize o seu corpo e mente para a maternidade.

O mundo do trabalho idealizado pelos e para os homens não encaixa na natureza feminina.
A partir do momento em que a mulher entrou em competição com o homem num mundo que lhe era estranho, a maternidade, por ser um atributo ausente do mundo masculino, passou a ser relegada pelas sociedades capitalistas para uma invisibilidade no espaço e no tempo. É vista como algo que já que tem que ser, seja!..., mas que seja rápida e não traga muitos transtornos ao normal funcionamento do mundo do trabalho idealizado por e para os homens.
Ana Ferreira Martins
Trecho do livro "Mulher Plena Num Mundo De Homens"

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Mulher Plena Num Mundo De Homens

Eu e As Águas Primordiais

“Foi disto que andei à procura a vida inteira!...encontrei!..., esta foi a maior riqueza que a vida me deu!...A minha liberdade de ser quem sou e de sempre procurar fazer o que está alinhado com a minha missão.

 Os outros e as outras já não ocupam tanto espaço dentro de mim. Alguns, algumas, sim, mas não sob a forma de aprovação exterior. Sinto-me bem comigo própria e a leitura exterior a mim não me incomoda, porque já não espero aprovação do mundo. Eu ocupo-me e vivo essencialmente envolta nas minhas entranhas.”

Para que melhor se compreenda este livro e porque sinto que a nossa origem, o nosso nascimento faz parte da semente que se coloca na terra para germinar, florescer, dar fruto e morrer para tornar a nascer, vou dar a conhecer às minhas leitoras e meus leitores um pouco da minha semente.

Agora que me sinto uma mulher madura, dou por mim a procurar o entendimento para as vivências da minha vida, para as quais até hoje não lhes tinha dedicado o cuidadoso, sereno e amoroso olhar da alma.

Uma das vivências sobre a qual me vi debruçada, foi a do fato de ter nascido num berço muito especial, feito à mão pelo meu pai e decorado de rendas e malhinhas tecidas de desejo e amor pela minha mãe. Esse berço concebido com as delicadas linhas da magia, ainda hoje vagueia perdido e envolto nas forças telúricas que a natureza universal lhe confere.

Trecho do livro "Mulher Plena Num Mundo de Homens"

Autora, Ana Ferreira Martins


quarta-feira, 22 de abril de 2020

O Homem, com letra grande, nunca poderá representar homem e mulher.

A Mulher e a Linguagem 

O Homem, com letra grande, nunca poderá representar homem e mulher

Palácio Foz - Lisboa




Humanidade ou ser humano poderá incluir a mulher. Quando se fala de Homem, não me sinto incluída, talvez porque na realidade a grande maioria das vezes nem implícitas as mulheres estão. 

Portugueses não são portuguesas, trabalhadores não são trabalhadoras, todos não são todas, Homem não é mulher, aluno não é aluna, menina não é menino, gato não é gata, urso não é ursa, amo, não é ama, secretária não é secretário de estado, gestor não é gestora, dá trabalho integrar o feminino na escrita e na linguagem? 

A mim dá-me a sensação de inexistência e exclusão, não me reconhecer na inclusão do masculino!... 

Enfim, para alguma coisa se fala em linguagem inclusiva, onde o ele e o ela, se revejam na comunicação de uma forma individualizada e com as características especificas e diferenciadoras de cada sexo. 

A mulher permite, consente e compactua com comportamentos machistas fomentados pelo patriarcado, sem na maioria das vezes ter consciência de que o faz. 

A brutal e secular aculturação da mulher pelo homem, tem impossibilitado à mulher um olhar transparente e abrangente que permita vislumbrar para além da manta negra que faz a divisão de si mesma e da sua essência feminina. 

A mudança está em curso, e mulher após mulher, vai despertando e sentindo a necessidade absoluta e inequívoca de compreender e tocar a verdadeira e poderosa mulher, que embora adormecida e silenciada pela repressão patriarcal, que habita dentro das suas células e memórias atemporais. 

A Mulher que se expressa com uma linguagem própria e inclusiva, é a que se liberta de forma consciente do poder patriarcal. 

Mulheres, é tempo de repensarem a comunicação e a linguagem, pois ela reflecte comportamentos, pensamentos e acções. 

O reconhecimento do feminino na linguagem não é uma questão de somenos importância, é o reconhecimento de que metade da humanidade existe, não só na escrita e na linguagem, mas sobretudo nas mentes e pensamento da humanidade.

Ana Ferreira Martins







terça-feira, 31 de março de 2020

O Universo É Perfeito




O universo é perfeito. Até o aparentemente inexplicável pela mente humana, constrói um caminho de luz escrito com tinta invisível aos nossos olhos.

Acreditar com confiança é a chave para a motivação continua que nos conduz à evolução interior e exterior.
AMFM

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Algarve - Ferragudo - A minha terra

ALGARVE

“Minha terra embalada pelas ondas, 
lindo país de moiras encantadas,
onde o mar tece lendas e onde as fadas em castelos de lua dançam rondas...”



OS ÁRABES 

Chama-se Algarve, porque os Árabes ali estiveram e lhe deram o nome, mas fizeram mais que lhe dar o nome, esses visitantes do Norte de África. Fizeram do Algarve o seu lugar preferido. Diziam coisas lindas, tais como: “é um país abundante em frutos e produção de todo o género, com muitas cidades e vilas”. “As suas casas, continuamente caiadas de branco, por dentro e por fora, dá gosto vê-las ao lado das árvores verdes... parecem pérolas desirmanadas engastadas em leito de esmeraldas”. “nunca vi país que se lhe possa comparar em beleza, fertilidade, abundância de água”...o “paraíso terreal”. 

A montanha, que o define. isola-o e permite que tenha características próprias – na terra e nas gentes o Algarve é diferente do resto de Portugal. Os soberanos portugueses souberam compreender e respeitar esta diferença, intitulando-se sempre Reis de Portugal e dos Algarves. São 5072 quilómetros quadrados de um reino diferente. 

Tem um clima próprio, com características mediterrâneas, verões quentes mas invernos suaves, poucas chuvas, mas bons níveis de humidade no ar. 

Ferragudo está tão perto do rio que se diria que a maré cheia vai entrar nas casas mais baixas. 

Vista de longe ferragudo é uma pirâmide de que a Igreja é o vértice. As casas sobem a colina desde o rio até ao adro, donde se admira mais um panorama magnífico. As casas são simples, por vezes com belas chaminés. 

Até ao século XVI, Ferragudo quase não existiu – era uma espécie de colónia de pescadores que aqui moravam no Verão e se dedicavam ao amanho da terra durante o Inverno. Depois, foram ficando, ficando. Fizeram a igreja. Construíram casas e mais casas. 




FERRAGUDO – A MINHA TERRA

Não podiam ter escolhido melhor local para ter nascido. Nasci virada para o mar com o rio Arade a entrar por baixo da casa..., ainda hoje se chama a casa do Salva – Vidas. 

Casa branca de longo corredor que termina numa sala mágica virada para o mar e para a Praia da Rocha, o escritório do meu avô. Aos 4 anos já pegava nos seus potentes binóculo para tentar ver as sardinhas que os barcos de pesca traziam com as gaivotas na sua perseguição em direcção ao Porto de Portimão. 

Que mágicos finais de tarde de verão, me lembro de passar, sentada no “pitoril” género de terraço algarvio, que antecede a entrada das habitações, com a minha avó e o meu avô a ver passar as traineiras indo para a pesca. Magia que desapareceu com o tempo e com a política europeia para as pescas. As muitas fábricas de sardinha que existiam em Ferragudo, fecharam e  pescadores com seus barcos são poucos e quase não se vêem por aquelas bandas as. 

12-2001

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A CONSCIÊNCIA DA VIDA

Que consciência temos do verdadeiro sentido desta vida?
Se a morte e a vida são o contorno de uma mesma e diluída verdade,
como encontrar a substância da qual a vida de sangue e lágrimas se alimenta?

A dualidade dos opostos une-se numa inexistência inexprimível!...

Cada passo que cuidadosa e silenciosamente damos em direcção à consciência da vida,
 torna-se um trovão da alma que nos leva num rodopio incessante de dúvidas e mais dúvidas,  que acabam por se diluir no éter do nada, no vazio de uma ausência, de uma ausência de consciência.

A vida e a morte são a mesma face de um ténue contorno de uma existência terrena que bem sentida, sabemos que é inexistente, se meramente compreendida pelo que somos neste contexto terreno.

Quero ser algo que não existe, só porque assim poderei, quem sabe, atingir uma vaga e imperceptível consciência.

Brumas e mais brumas que nos impedem de caminhar…
Andamos em círculos fechados.
Círculos perpétuos de vida e morte!...
Sim, somos uma humanidade eternamente às voltas no deserto…


Maria Ferreira

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Significados sem consciência


A vida plena de significados sem consciência
Que consciência temos do verdadeiro sentido desta vida?
Se a morte e a vida são o contorno de uma mesma e diluída verdade,
como encontrar a substância da qual a vida de sangue e lágrimas se alimenta?
A dualidade dos opostos une-se numa inexistência inexprimível!...
Cada passo que cuidadosa e silenciosamente damos em direcção à consciência da vida,
torna-se um trovão da alma que nos leva num rodopio incessante de dúvidas e mais dúvidas,
que acabam por se diluir no éter do nada, no vazio de uma ausência, de uma ausência de consciência.
A vida e a morte são a mesma face de um ténue contorno de uma existência terrena que bem sentida,
sabemos que é inexistente, se meramente compreendida pelo que somos neste contexto terreno.
Quero ser algo que não existe, só porque assim poderei, quem sabe, atingir uma vaga e imperceptível consciência.
Brumas e mais brumas que nos impedem de caminhar…
Andamos em círculos fechados.
Círculos perpétuos de vida e morte!...
Sim, somos uma humanidade eternamente às voltas no deserto…

Ana Maria Ferreira Martins